Flávio Bolsonaro é o “Bolsonaro moderado”?
Talvez ter caído no conto do “Bolsonaro moderado” tenha feito muito eleitor se abster de seu voto. Como? Eu explico!
Foram mais de 30 milhões de brasileiros, aptos a votar, que não compareceram às urnas no domingo, dia 4 de outubro, ou votaram branco, ou nulo. Os motivos apontados para esse número tão expressivo são vários, especificamente concentrados na desesperança e no cansaço com a política brasileira, a sensação de que o voto não muda nada.
Mas há um outro fator que talvez tenha contribuído para muitos brasileiros não darem a devida importância ao voto, especialmente para escolher um presidente: a percepção de que Flávio Bolsonaro não é tão ruim quanto o pai. Segundo esse raciocínio, num cenário em que Lula perdesse, o Brasil não viveria uma catástrofe tão grande quando a do governo de Jair, já que Flávio teria um perfil mais tranquilo e flexível que o do pai.
É justamente assim que Flávio tem se vendido em sua candidatura política, como um Bolsonaro "mais centrado". Ao mesmo tempo que reivindica o legado do pai com relação ao eleitorado fanático pelo bolsonarismo, acena para o resto da população se dizendo “diferente”. Mas a melhor maneira de observarmos se isso é ou não verdade é olhando para a prática de Flávio na vida pública.
A forma de se comunicar, por exemplo, é a mesma de Jair: lives semanais para falar direto com os eleitores e construir uma narrativa paralela junto deles, ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e um discurso sempre pautado no confronto. De moderado isso não tem nada! Mas não para por aí.
Logo após o resultado do primeiro turno, Flávio disse, com todas as letras, que vai trabalhar junto ao Senado para mudar a constituição e “redemocratizar o país”. Algo que vai além do que o próprio pai dele disse, e muito ao encontro do que o núcleo duro do bolsonarismo sempre pregou: uma forma de mudar a nossa constituição para fazer com que apenas o campo político deles tenha espaço. Ou seja, o que ele chama de “redemocratizar” na verdade é justamente acabar com qualquer resquício de democracia no Brasil. 1
No que se refere ao seu plano econômico, Flávio Bolsonaro deixa bem claro que suas medidas passarão pelo que ele chama de "tesouraço" nas contas públicas. O que isso significa? O governo do pai dele já nos mostrou: menos investimentos que beneficiem a classe trabalhadora, mais gente desempregada e passando fome. No governo de Jair Bolsonaro tivemos, inclusive, a triste realidade de famílias entrando em filas para conseguir doações de ossos para tentar aplacar a fome.
E quanto a luta pelo fim da escala 6x1? Flávio é contra! Sim, essa luta que levou milhares de trabalhadores brasileiros pra rua, se depender de Flávio Bolsonaro e seus principais apoiadores nunca se tornará uma realidade. Porque, assim como Jair, ele está ao lado dos empresários, dos ricos, e não da classe trabalhadora.
Embora o seu plano de governo não cite a 6x1 nominalmente, o truque aqui é defender "a negociação com o patrão" - que, na prática, significa defender a intimidação do trabalhador por parte do do patrão, principalmente num cenário de crise e desemprego2.
Além disso, com relação às casas de apostas, as chamadas "bets", Flávio se diz contra a proibição, e quer voltar a permitir as apostas esportivas online, mesmo com a população demonstrando apoio à medida tomada por Lula3.
Ou seja, assim como Jair, Flávio Bolsonaro tem as suas prioridades ligadas totalmente aos mais ricos. Para ele, não faz diferença o clamor e a luta da classe trabalhadora brasileira. Além disso, ele também usa do mesmo discurso do pai de desmonte das instituições para impor suas convicções políticas e calar as demais. Não há nada de moderado em Flávio, além de uma propaganda que não deveria convencer ninguém, mas que infelizmente pode ter sido eficiente.
Flávio Bolsonaro também supera o pai na subserviência aos EUA
Ao longo de seu segundo mandato como presidente dos EUA, Donald Trump tem deixado cada vez mais claras suas intenções com relação à América-Latina e ao Brasil: Trata-se de impor os interesses norte-americanos acima dos nossos, dentro do nosso próprio país.
Uma das demonstrações mais rasteiras de total desrespeito a nossa soberania nacional veio com o ataque de Trump ao PIX. Atualmente, o PIX é um dos meios de pagamento mais usados pelos brasileiros, por ser rápido, seguro, eficiente e não cobrar nenhuma taxa pelas transações, diferente das empresas de cartões de crédito.
Vendo o sucesso do PIX no Brasil, a Casa Branca acusou o governo do nosso país de "favorecer um sistema estatal de pagamentos e dar tratamento considerado desfavorável a empresas americanas que atuam no setor, especialmente as operadoras de cartões de crédito"4.
Ou seja, ao se deparar com uma tecnologia nacional, que beneficia os brasileiros, o que o governo estadunidense fez? Atacou de forma descabida em favor de beneficiar suas empresas, em detrimento do benefício dos próprios brasileiros.
Esse comportamento se explica muito bem quando nos deparamos com o que está sendo chamado de Doutrina Donroe: "um trocadilho que mistura Donald com Monroe, é uma referência à Doutrina Monroe, estabelecida no século 19, que busca manter as Américas como área de influência — ou "quintal" — dos EUA, não deixando que outras potências aprofundem relações com países do continente"5.
Sim, Donald Trump vê a América-Latina como seu quintal! E usa de diversos artifícios para fazer com que a sua visão se concretize. O mais novo é o chamado "Escudo das Américas".
Na teoria, esta é uma coalizão lançada pela administração Trump que reúne governos alinhados ao republicano na América Latina, a fim de combater o crime organizado e o narcotráfico. Na prática, é uma carta branca para o governo americano exercer sua supremacia nas Américas.
O que isso significa? Entre outras coisas, o uso unilateral das forças militares estadunidenses contra inimigos percebidos (ou seja, os EUA vão poder dizer quem são os "inimigos" no nosso território e escolher como atacá-los), a obtenção de acesso a recursos considerados vitais para a nossa segurança nacional, inclusive recursos naturais e a violação do direito internacional em prol dos interesses norte-americanos6.
Sob o pretexto de combate ao narcotráfico, por exemplo, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi sequestrado pelo governo Trump. O presidente dos EUA acusa Maduro de fazer parte do “Cartel de Los Soles”, que nem sequer é um cartel de fato. Porém, em vídeos recentes, Trump admite estar retirando bilhões de dólares em petróleo do território venezuelano7.
Essas ações do governo estadunidense, tão próximas da gente, demonstram que, tendo poder para dizer quem é o inimigo da vez e usar sua força militar dentro do nosso país, todos nós estaremos vulneráveis aos mandos e desmandos do imperialismo dos Estados Unidos.
E qual a posição de Flávio Bolsonaro diante de tudo isso? O ENTREGUISMO ABSOLUTO! Em março desse ano, ele discursou no Conservative Political Action Conference (CPAC) e disse, entre outras coisas, que o Brasil é "a solução para os Estados Unidos quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras"8.
Flávio Bolsonaro ainda continuou: "Quando os Estados Unidos ficam vulneráveis, todo o mundo livre fica vulnerável". Ou seja, ao invés de estar interessado em proteger as nossas riquezas, a nossa soberania e segurança nacional, Flávio se mostra feliz em entregar tudo aos EUA. Obviamente, por essas e outras, ele é o candidato de Trump aqui no Brasil.
Não esqueçamos do que foi o governo Bolsonaro
O legado do governo de Jair Bolsonaro é o pior possível! Ele foi responsável por fazer o país voltar ao mapa da fome. Entre 2018 e 2020, anos do governo de Jair, a fome atingiu 7,5 milhões de brasileiros. Já entre 2014 e 2016, esse número era de 3,9 milhões9.
Os números de Jair Bolsonaro na presidencia são realmente assustadores. Tivemos 14 milhões de desempregados e 49,6 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar moderada ou grave.
Durante a pandemia, período muito crítico para toda a população (não só do nosso país, mas do mundo todo), o ministro da Economia de Jair, Paulo Guedes, tinha o objetivo de oferecer apenas 200 reais de auxílio aos brasileiros. Foi o Congresso Nacional, movido pela luta do povo, que garantiu 600 reais de auxílio emergencial. Mesmo tendo usado posteriormente o valor de 600 reais como parte de sua campanha política à reeleição, Jair e seus aliados foram contra até o fim, sustentando a ideia de que 200 reais seria o suficiente para as famílias brasileiras10.
Também foi na pandemia da Covid-19 que o Brasil mais sofreu com o governo de Jair, momento onde a gestão Bolsonaro teve 4 ministros da saúde diferentes (Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich, Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga) porque o então presidente intervinha constantemente, de forma a inviabilizar o trabalho. Foram mais de 700 mil mortes daquilo que Bolsonaro classificou como uma "gripezinha".
O Brasil ficou entre os 5 países onde mais pessoas morreram devido a Covid-19, sendo muitas destas mortes evitáveis. Sob o governo Bolsonaro, o Ministério da Saúde deixou ao menos 38,9 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 passarem da validade e, com isso, serem incineradas11.
E onde estava Flávio Bolsonaro, enquanto os brasileiros passavam por tudo isso? Metido em esquema de corrupção, de acordo com denuncias feitas à Agência Pública. E não é qualquer esquema de corrupção, e sim um que lidava diretamente com o orçamento de hospitais federais, em meio a uma pandemia:
"Com orçamento superior a 3 bilhões de reais para os quatro anos, período em que o país enfrentou a pandemia de Covid, documentos e depoimentos obtidos pela Pública revelam que a precariedade no funcionamento dos seis hospitais federais do Rio convivia com contratos superfaturados e concentração de recursos em custeio de despesas, comandadas pelos administradores locais, que seriam indicados pelo grupo político de Flávio Bolsonaro"12.
É esse o sujeito que quer ser presidente da república. Se o legado de Jair Bolsonaro foi catastrófico para a classe trabalhadora brasileira, o de seu filho tem tudo para ser ainda pior.
Portanto, se você não foi votar, ou conhece alguém que não foi, com o pensamento de que qualquer um dos dois que ganhar será ruim igual, saiba que não é verdade. Com um congresso e um senado em sua maioria de direita, sem ninguém pra freá-lo, Flávio Bolsonaro tem um potencial destrutivo para o Brasil ainda maior que seu pai, e muito mais duradouro.
Por isso, dia 25 de outubro, vá as urnas e vote 13. E, depois de votar, lembre-se que o que garante manutenção e conquista de nossos direitos, enquanto classe trabalhadora, pra muito além do voto, é a nossa luta organizada - independente de quem vença as eleições. Organize-se pra continuar lutando pela sociedade que queremos ver.
Referências
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Flávio promete “mudar Constituição para redemocratizar o país”. Vídeo ↩
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Flávio Bolsonaro no segundo turno: veja o que o candidato propõe caso seja eleito ↩
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Por que o Pix se tornou um foco da ofensiva comercial de Trump contra o Brasil ↩
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Trump pede que membros do Escudo das Américas classifiquem narcoterroristas como ameaças comuns ↩
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Flávio diz que Brasil é “solução para EUA ter minerais de terras raras” ↩
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Guedes defende valor de R$ 200 para auxílio emergencial, proposto pelo governo ↩
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Brasil ultrapassa 700 mil mortos pela Covid-19; governo Bolsonaro deixou vencer e incinerou milhões de vacinas ↩
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Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro ↩